"Todos os meus amigos escrevem. Todos os meus amigos têm livros. Eu leio. Sei o que sou: leio o que os outros escrevem." E tu? O que és? Senta-te comigo, com um sorriso nos lábios e um livro aberto nas mãos.

segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

Juntaram-se os dois à esquina...

Há apenas uma coisa que me deixa descansada relativamente ao nosso novo presidente, é saber que vai ser mais de esquerda que o nosso primeiro-ministro. Um já sabemos como é, o outro está a revelar-se muito interessante…se o Cavaco conseguir ser mais de Direita que o Sócrates, bato-lhe palmas, e saio do país.

sábado, Fevereiro 04, 2006

Por onde ele anda…

Onde anda o Gonçalo Cadilhe?
Voltando uns tempos atrás…
O Gonçalo está comigo desde o início, a passear pelo mundo, na sua volta ao mundo! Passeou, escreveu, passou, falou, fotografou e depois voltou, escreveu um livro, foi a programas importantes, e agora?
Continua a dar notícias, vai andando pelo mundo, regressando a sítios passados, passando por sítios novos e esta semana encontra-se comigo no Expresso, mais uma vez. Fala de casas, da sua casa ideal.

“Não gosto da imobilidade definitiva dos imóveis, nem do peso lacónico dos móveis. Diz-me como preenches os teus interiores, e serei obrigado a saber quem és, mesmo que eu não o queira. Irrita-me a ditadura do espaço ditada pelas paredes, e a corrosão do tempo nas paredes. Não gosto de casas, mas gosto de janelas. Há qualquer coisa de sagrado numa janela, um altar primordial sobre os horizontes das possibilidades humanas, uma revelação que separa a luz das trevas. A janela representa uma conquista civilizacional, indica uma sociedade que alcançou segurança e paz, que honra os acordos territoriais estabelecidos com os vizinhos; e que confia num comportamento semelhante por parte desses vizinhos…a casa encerra o espaço, a janela desvenda e oferece o mundo…é um paradoxo pessoal que me persegue desde há muitos anos. Não gosto de casas mas ligo-me emocionalmente aos objectos…Uma casa para sonhar novos continentes e repousar dos oceanos atravessados, o ponto das partidas, o momento das chegadas. Lá dentro, um bicicleta que relincha, uma mochila a exigir reforma, um seixo fiel como um cachorro, uma guitarra por acariciar. Lá dentro uma janela que empurra para fora.” Gonçalo Cadilhe, in Expresso.

O nosso Gonçalo assim está. Diferente do primeiro dia, mas isso também nós. Começam a ser crónicas pessoais. Antes também o eram, mas falavam de lugares, de como o afectavam. Agora, fala-nos de si, e de como pode existir no mundo. Incapaz de comprar casa, adepto do aluguer, será que andas perdido?
Tive dificuldade em adaptar-me à tua mudança. Agora estamos juntos, de novo. Uma janela grande que nos espelhe aos menos as possibilidades e os sonhos. O nosso Gonçalito está bem, à maneira dele. Daqui a uns tempos manda-nos mais uma carta, com um sorriso nos lábios, e tons diferentes dos nossos. Sem mais.

Proposta com intervalo das 9h às 23h

Para um pequeno-almoço, um lanche ou apenas umas horas bem passadas, proponho duas livrarias. A Livraria Barata, na Avenida de Roma, como quem vai e desce ao pé da Estátua. É uma livraria enorme, numa avenida bonita, com espaços bem cuidados e limitados, tem escolhas acertadas, um café agradável, empregados prestáveis, e este mês tem preços muito convidativos. Promoções até aos 70%, em livros que não são sobre a cozinha da região do Sado em 1800 e troca o passo. Uma oportunidade até ao fim do mês, uma livraria até ao fim da vida. Ainda na mesma Avenida, ou lá muito perto, o cinema King. Aí pode-se ver um bom filme, ou simplesmente passar pela pequena livraria e pelo acolhedor café. Esta livraria, de gosto requintado, pequena no espaço, enorme na diversidade, apresenta-nos algumas pérolas. Os preços não são os mais convidativos, mas as escolhas sim. Desde dos filmes Atalanta, às agendas e postais, bandas desenhadas, livros de design e fotografia, colecções de policias…umas horas antes de um filme, com um café pelo meio. Engane-se quem pensava que eu não andava atenta aos livros.

quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

Parabéns

Parece-me oportuno dar-te os parabéns. Já lá vão uns aninhos. Ainda me lembro quando aparecias lá em casa a chorar porque o teu pai te tinha dado uma sova de caixão à cova. Depois riamos apenas. E assim se fizeram belas obras. Lembras-te do Don Giovanni, tu eras um conquistador de mulheres, eu era uma camponesa, e enfim...o resto já se sabe. Tenho saudades tuas. Mas às vezes, leio um livro e bebo um café, com a tua música ao fundo. Ainda somos amigos não somos?
Parabéns, meu querido Mozart!
250 anos…quem diria que ainda estaríamos aqui?
Um abraço, de mim simplesmente para ti, ana.

segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Faz hoje um ano que fui para Itália.
Significa isto que o tempo passa rápido.
Entretanto voltei, e estavam todos cá. Uns mais que outros. Uns parece que não voltaram e outros não foram comigo.
Continua a fazer sol nalguns dias. Na maioria.
Mudou-se de governo, mudou-se de presidente.
As uvas do supermercado aqui da rua aumentaram em 20%.
Agora sonho em italiano, algumas vezes.
Os putos cresceram o que tinham de crescer.
As flores lá estavam na Primavera.
E os olhos abrem de manhã, com o mesmo espanto de sempre.
Continuo a ler o placar: “PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAr ESPANTADO DE EXISTIR!”
As bolachas da Holanda são as melhores. (utilizo o artigo definido, feminino, plural)
O mar é azul e sempre cheio de peixes.
O cabelo cresceu.
A roupa ficou mais apertada, devido aos gastos controlados.
Veneza apresentou-se de forma sedutora….ainda tenho o número dela.
Aprendi a sorrir noutras línguas.
E agora…..agora….neva.
Convido-vos para mais um ano.
E faz hoje um ano.

terça-feira, Janeiro 03, 2006

Bonito serviço!!! – disse.
Ah sim? – perguntou ele, irónico.
Sim, bonito serviço que aqui está. – continuei.
Não olhes para mim…. – Escapando com os olhos.
Sim senhor, bonito serviço! – com mais firmeza.
Ana….. – disse ele.
Que foi? É um bonito serviço de porcelana. A palhaçada que temos em casa não chega para 10 pessoas. – terminei eu com a curiosa dúvida.

quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

Olá,

Então, como estás? Como vai essa vida? Que tens feito neste últimos tempos? Ainda estás por aí? Tenho-me lembrado de ti, algumas vezes, de soslaio.
Por aqui tudo bem. A cidade é bonita, pequena, cabe na palma de uma semana e vê-se bem a pé. Ou de bicicleta. E perguntas-me tu: mas andas de bicicleta? Sempre. Recordo aqueles sábados em que tinha vontade de andar de bicicleta pelos campos de Alcobaça e Nazaré. Pelos vistos regredi, nisto sim. Andamos todos de bicicleta. Uma comunidade de ciclistas, com regras e tudo. Mas eu teimo em quebrá-las. Condução divergente.
Bonita a cidade, com este tempo de sol, translúcido. Tem uma praça que irias gostar, é grande, enorme, a maior que alguma vez viste, com um lago, namorados sentados na relva, intelectuais a ler livros russos, crianças a andar de triciclo, velhotes a conversar sobre outros tempos. Ias gostar, tanto como eu gosto. E traz dinheiro no bolso porque há um mercado ao Sábado, com coisas giras. Não deixo de ter saudades de Lisboa, é a minha cidade, mas estou bem aqui, a experimentar a sensação de estar num sítio pequeno em que reconheço caras e me sinto reconhecida. Aparece cá que vamos comer um gelado e atirar milho aos pombos em Veneza. Eles até vêm à mão. E depois podíamos andar a pé. Apenas. E falar sobre a nossa vida, aquilo que tem sido. Ou talvez nos apeteça rir apenas. Logo se vê. Aparece e logo se vê.
A casa é de facto muito bonita, gosto imenso, é no centro da cidade. Aí sempre tive o problema de ir para casa à noite e agora vou a pé para qualquer sítio. Imagina tu o que é viver no Rossio…pois assim estou eu. As pessoas são simpáticas, a comida é muito boa, a televisão fica melhor desligada, a música faz-me pensar que aí temos um gosto mais abrangente, as casas são bonitas, as ruas estão bem tratadas, os bares são giros, a burocracia é lenta como aí, os telemóveis são fonte de grandes rendimentos para o país, imagina tu que quando carregamos o telemóvel tiram-nos sempre dinheiro, carregamos com 10 euros tiram-nos 2 euros, carregamos com 5 euros e tiram-nos 1 euro, cada sms custa cerca de 20 cêntimos e paga-se os relatórios de entrega. Compensa pagar a um mensageiro.
Por enquanto os dias estão calminhos. Andam todos a estudar por aqui, andam todos em exames, ou então a viajar, ou a última moda, estar-se doente. Toda a comunidade está doente, incluindo eu. Mas se ficar doente aí significa estar deitada no sofá, com chazinho e sopinha feita pela mamã e a ouvir um belo programa de animais com a voz do Euládio Clímaco, aqui significa o desespero absoluto. Não há mãe para nos compreender e dizer que de facto somos a pessoa mais doente do mundo e que estamos a morrer e a televisão teima em dar programas dos anos 80. Tudo é em italiano, este é um facto estanque, mas os programas são mesmos maus. Para além de ter bastantes canais de televendas e programas de confidências e astrologia, as séries estrangeiras que dão são dos anos 80, séries que deram aí no início da televisão a cores.
No outro dia fui sair à noite, a uma discoteca que ao domingo tem festa de Erasmus. Quando me vim embora, andei cerca de 15 minutos de bicicleta. Não vi uma única pessoa, foi aí que me apeteceu despir e andar de bicicleta nua. Estás a imaginar? Andar pelo meio da rua mais importante de uma cidade, passar pelas montras Armani, pelos Bancos toda nua! O potencial de uma cidade vazia é fantástico. Podes fazer qualquer coisa. Como se o mundo tivesse acabado e tivessem ficado as cidades, os bancos de jardim, os caixotes do lixo, os cadeados e as bicicletas, as sarjetas, mas nenhum ser vivo (aproveito para expressar a minha dúvida sobre se as sarjetas serão ou não seres vivos).
Eu cá ando, parece-me ainda que estou de férias. Sem aulas, sem conhecer ainda muita gente porque esta é uma época de transição, com os dias livres para passear, ler, conversar. Ando bem, hoje estou doente é verdade, mas bem disposta. E tu? Vai dando notícias, que isto sem saber de ti não vai ser o mesmo. De qualquer das maneiras estarei aí pelo Verão e aí falamos, numa esplanada com uma bela imperial, eu falo-te destes meus dias e tu falas-me desses teus dias. Estou bem, mas tu já desconfiavas não era? Já sabias que ia gostar disto. E tu também vais gostar.

Um abraço, de mim simplesmente para ti

ana

quarta-feira, Janeiro 19, 2005

A minha viagem

Faltam poucos dias para me ir embora. E começo a ficar ansiosa. É agora que penso a sério nas razões que me levam a querer sair. E dizê-lo custa-me. Porque me expõe demasiado. Mas gostava que algumas pessoas soubessem porque vou, e que não pensassem que viajo pelas razões habituais de quem viaja. Saio porque há algum tempo que não me sinto bem. Não é assustador, não é patológico. Nem sequer faz comichão no dia-a-dia. Mas sei que preciso de alguma coisa, para modificar outras coisas. Preciso simplesmente de me afastar, porque não me soube afastar aqui. Porque preciso de me concentrar na maneira como gosto das pessoas à minha volta, na maneira como digo não, na maneira como me disponho. Preciso que estas sejam características que não se misturem com a Ana que quer ter um filho André. E a determinação é tanta, mas vai-se perdendo naquilo que quero mostrar que consigo dar. O problema não é de ninguém a não ser meu. Sou eu que não sei separar o joio do trigo. Esta é a minha motivação. O resto virá por acréscimo. O país, com o qual sonho desde pequena. Viajar, que é o verbo que estará sempre no infinitivo, porque jamais deixarei de o utilizar. Paleio, paleio, pessoas, conversas, dançar, dormir, parlare, pastar (vt. Do latim, fazer pasta), estudar, ler, escrever. Mas principalmente fazer uma pausa. E infelizmente tenho que usar o termo pausa, porque o que queria mesmo era que o tempo deixasse agora de ser importante. Ia para lá no Inverno, mas também podia ir na Primavera, não interessava, podia ir numa monção qualquer, mas estaria geográfica e temporalmente afastada.
Vou ter saudades, não muitas, mas vou ter. De momentos pontuais, com pessoas específicas, da cidade, da minha casa. Não vou perder nada que não possa achar de novo mais tarde. Acho eu. Mas em vésperas anunciadas da minha partida, tenho medo. Nem sequer é ansiedade, mas medo mesmo. Medo de ser uma viagem egoísta. E ao mesmo tempo medo de me aperceber que vou estando melhor sozinha. E sozinha no sentido de me preocupar mais, de deixar de querer ser “mãe” antes de tempo.
Andava com medo de dizer isto. Mas é por isto que viajo, porque quero estar um bocado sozinha. E conhecer pessoas novas ou estar com novos amigos não é incongruente. Porque agora está tudo parado, só se ouve uma voz ao fim da rua, uma daquelas vozes finas e irritantes, que entram nos ouvidos e dificilmente saem, passam o resto da vida a morar que nem parasitas dentro do meu sistema auditivo. Que se lixe, vem comigo para fora deste mundo. Pode ser que um dia me faça companhia. E há algum tempo que me levanto com o corpo dorido, e sinto que o meu corpo é o reflexo de como me sinto, e aparentemente estou bem, psicologicamente estou calma, mas os médicos dizem que não. Que ando nervosa, que tenho de relaxar. Por isso vou-me dar esta oportunidade, de ir e voltar com a certeza de quando estou bem ou não. Porque agora não consigo ver isso, vejo-me sempre bem. E isto não é verdade. Porque acordo com o corpo dorido, e sei que não é do colchão, mas sim do medo, da certeza que ainda não descobri o que quero ser. Estou a depositar muito nesta viagem e acho que vou vir de lá mais feliz. Com uma felicidade não tão aparente como esta que sinto agora, e que sinto mesmo, não a invento. Mas sei que sou eu a contornar uma rotunda, a andar às voltas.
É um peso que tenho que afastar de mim. Preciso disto.